Quinhentas crianças não operaram. E não foi por falta de médico.
Uma investigação da Polícia Civil do Distrito Federal e do Ministério Público apura a formação de cartel no mercado de anestesia da capital. A cooperativa investigada nega todas as acusações.

O que está sendo apurado
Em abril de 2025, a Polícia Civil do Distrito Federal, pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado, e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios deflagraram uma operação para investigar a formação de cartel no mercado de anestesia da capital.
A investigação apura se um grupo ligado a uma cooperativa de anestesiologistas dominava o setor há décadas, impedindo a entrada de médicos independentes em hospitais, fixando honorários acima do mercado e cobrando valores milionários de quem quisesse entrar. Os investigados podem responder por organização criminosa, cartel, constrangimento ilegal e lavagem de dinheiro.
A cooperativa nega todas as acusações. Em nota, afirmou que nunca houve cartel nem qualquer irregularidade por parte da entidade e de seus diretores, e que vai comprovar a regularidade dos trabalhos prestados aos cooperados ao longo de mais de quarenta anos.
Segundo o que foi divulgado pelas autoridades, o efeito chegou ao serviço público: hospitais e a própria Secretaria de Saúde teriam encontrado dificuldade para contratar anestesista por causa dos valores exigidos.
Por que eu falo disso
Eu passei trinta e três anos na Polícia Civil do Distrito Federal. Dirigi o Departamento de Atividades Especiais, ao qual era subordinada a Divisão de Crime Organizado. É a linhagem direta da estrutura que conduziu essa investigação.
Organização criminosa, constrangimento ilegal e lavagem de dinheiro foram o meu trabalho a vida inteira. Eu sei reconhecer a estrutura de uma organização criminosa quando ela aparece.
E ela não muda de forma só porque quem está dentro dela usa jaleco em vez de arma.
Eu não estou contra os médicos
Quero ser muito claro sobre isso, porque é o ponto em que a conversa costuma descarrilar.
A investigação da minha polícia mostra que as vítimas também são médicos. Anestesista formado, capacitado, querendo trabalhar, que segundo a apuração foi barrado, ameaçado ou cobrado para poder entrar.
Esses profissionais seriam as primeiras vítimas do esquema. A segunda vítima é o paciente que não operou.
Não é briga entre categorias. É crime contra quem paga imposto e espera na fila.
Isso muda a conversa sobre a falta de anestesista
Todo mundo fala em escassez de anestesista no Brasil. Mas se existe médico formado e disponível sendo impedido de trabalhar, isso não é escassez.
É reserva de mercado.
Então, antes de discutir quem mais pode dar anestesia, eu quero discutir por que quem já pode está sendo impedido. Primeiro se derruba a barreira artificial. Depois, com estudo e com dado, se discute o resto.
A ficha do caso, para você conferir
Abril de 2025.
Polícia Civil do Distrito Federal, pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado, em ação conjunta com o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios.
Cumprimento de mandados de busca e apreensão contra dirigentes de uma cooperativa de anestesiologistas do DF e contra profissionais ligados a ela.
A partir de representação do Ministério Público, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica abriu apuração por indícios de restrição à concorrência e barreiras de entrada.
O CADE já condenou cooperativas de anestesiologistas por cartel em outros estados e já recomendou condenação em mais de um caso. É um padrão nacional reconhecido pela autoridade de defesa da concorrência.
A cooperativa nega todas as acusações. Não há condenação, e todos os investigados são inocentes até que se prove o contrário.
O que eu vou fazer no Congresso
Cartel na saúde é matéria federal: envolve defesa da concorrência, envolve lavagem de dinheiro e envolve dinheiro público de contratação hospitalar. Cabe exatamente ao cargo que eu estou disputando.
Audiência pública sobre cartelização de serviços médicos
Trazer para o Congresso o que já está documentado pelo CADE em vários estados, e não tratar cada caso como se fosse isolado.
Acompanhar de perto o que o CADE está apurando
Aqui e nos outros estados onde já houve condenação. Fiscalizar é metade do trabalho de um deputado.
Quem contrata com o poder público não impõe preço por coação
Cobrar regra clara para que a formação de preço em contratação hospitalar pública não possa ser ditada por barreira de entrada.
Tratar cartel na saúde como crime contra o cidadão
Porque a conta não fica na planilha de ninguém. Ela chega na fila de cirurgia.
Quinhentas crianças não operaram. Alguém tem que responder por isso.
Todas as informações desta página vêm de comunicados oficiais da Polícia Civil do Distrito Federal, do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, e de reportagens publicadas sobre o caso. Trata-se de investigação em andamento: não há condenação, nenhuma pessoa é nomeada aqui, e a cooperativa investigada nega todas as acusações.
Crime organizado não muda de forma
A minha resposta inteira sobre facção, lei antifacção e o que falta para executar.