01
Polícia de Estado
Nenhum policial no corredor
Eu passei nove meses no que a gente chama de corredor. Sem atribuição, sem função, sem uma caneta na mesa. Não porque eu tinha errado. Porque eu não fazia parte de determinado grupo político dentro da instituição. Vi isso acontecer com policial competente a vida inteira: bom de serviço, mas jogado numa delegacia distante durante anos porque não frequentava o churrasco certo.
A propostaToda lotação de policial com função registrada e atribuição definida. Ninguém pode ficar formalmente lotado e materialmente parado. Prazo máximo para situação de disponibilidade, com justificativa e publicidade. E critério objetivo para designação e remoção, para que ninguém seja punido sem processo, por decisão de gabinete.
Por que eu: Porque eu passei por lá.
Cabe ao cargo: Diretrizes de gestão de pessoal das forças de segurança e transparência administrativa são matéria legislativa.
02
Proteção do policial
Equipamento não é uniforme
Em 2001, quando equipei a Divisão de Operações Especiais com material técnico, questionaram na Justiça o meu direito de fazer aquilo. Tive que explicar que não era farda: era equipamento. Tecido leve, secagem rápida, resistente, feito para proteger a vida do policial, não para identificar ninguém. Eu ganhei, o equipamento ficou, e o meu pessoal trabalhou protegido o tempo inteiro.
A propostaPadrão mínimo obrigatório de equipamento de proteção individual para o policial civil e para o policial penal, com previsão de custeio. Proteção do policial não pode depender de interpretação sobre quem pode vestir o quê.
Por que eu: Porque eu já briguei por isso na Justiça, e ganhei, antes de virar regra.
Cabe ao cargo: Padrão nacional de proteção ao servidor e previsão orçamentária.
03
Academia e ensino policial
Formação é carreira
Quando assumi a direção da Academia de Polícia Civil, montamos a primeira turma em que todos os policiais saíram com titulação de pós-graduação na sua área. Delegado, agente, perito, escrivão, todo mundo. E foi ali que nasceu o projeto da Escola Superior de Polícia. Hoje ela existe, mas está mal estruturada e sem gente para trabalhar. Foi estudando à noite, trancando semestre por falta de dinheiro, que eu virei delegado.
A propostaFormação continuada vinculada à progressão na carreira, com financiamento previsto e não sujeito a corte de conveniência. Escola de polícia com orçamento próprio e quadro próprio. Curso superior de polícia como pré-requisito real para cargo de chefia, e não como formalidade.
Por que eu: Porque eu construí a estrutura que hoje está vazia.
Cabe ao cargo: Diretrizes de ensino policial e alocação de recursos federais.
04
Gerenciamento de crise
Crise se gerencia com técnica, não com estrela
Em 2001, no complexo penitenciário, foram 32 horas de negociação com reféns policiais. Naquele dia apareceu autoridade querendo entrar, querendo mandar, querendo aparecer na frente da câmera. Eu barrei. Não porque eu quisesse holofote, mas porque quem gerencia crise não pode se envolver emocionalmente, e quem negocia não pode ter a cadeia de comando quebrada. Se aquilo se perde, morre gente.
A propostaEquipe de negociação e gerenciamento de crise treinada e permanente em todo o sistema prisional e em toda unidade de segurança. Protocolo claro de comando durante ocorrência com reféns, com definição de quem decide e de quem não entra.
Por que eu: Porque eu fui o gerente da crise.
Cabe ao cargo: Diretriz nacional para o sistema prisional e financiamento pelo Fundo Penitenciário.
05
Efetivo e carreira
Recompor o efetivo é o primeiro combate ao crime
4.456cargos vagos de 8.969 previstos em lei na Polícia Civil do DF
A Polícia Civil do Distrito Federal sobrevive hoje de abono de permanência e de serviço voluntário. Ou seja: sobrevive de quem já podia ter ido embora e ficou. A maior parte dos policiais civis já pensou em sair da instituição, e muitos estão estudando para sair, porque ela não oferece condição de permanecer. Metade do quadro está em aberto, e nenhuma lei funciona com delegacia vazia.
A propostaDefender no Congresso a recomposição integral do Fundo Constitucional do Distrito Federal, que é onde essa folha é decidida. Calendário plurianual de concursos, com meta de ocupação por carreira e prazo definido para zerar a defasagem. E previsibilidade de promoção por critério objetivo.
Por que eu: Porque eu vivi trinta e três anos dentro dessa conta, e sei o que ela significa na ponta.
Cabe ao cargo: É exatamente o cargo. O Fundo Constitucional é votado no Congresso Nacional.
06
Defesa do policial
A instituição vai junto
Quando a polícia sobe comigo, eu vou sozinho. A instituição não vai comigo. Ela vai só no peso do julgamento, porque quem está sendo julgado ali, no fundo, é a instituição inteira. Mas quem senta no banco é o policial, sozinho. Eu vi isso a carreira inteira, com gente que só tinha feito o que o Estado mandou fazer.
A propostaDefesa jurídica institucional garantida ao policial que responde por ato praticado no cumprimento do dever, em todas as instâncias, desde o primeiro dia. Não é privilégio: é a contrapartida de mandar alguém agir em nome do Estado.
Por que eu: Porque eu já sentei naquele banco.
Cabe ao cargo: Matéria legislativa e orçamentária.
07
Memória e amparo
Quem morreu servindo tem nome
A morte está sempre presente na vida do policial. Ao longo da carreira eu enterrei muitos colegas. Já perdi equipe inteira numa ocorrência e passei o Natal e os dois dias seguintes entre o cemitério e a UTI. Quando construímos o campo de treinamento na área da DOE, ele foi batizado em homenagem a eles.
A propostaRegistro público e permanente dos servidores de segurança mortos em serviço no Distrito Federal, e amparo garantido às famílias, com acompanhamento que não termine no dia do enterro.
Por que eu: Porque eu batizei o campo de treinamento.
Cabe ao cargo: Matéria legislativa e de assistência.
08
Contrainteligência
O crime estuda antes de entrar
Em 1982, no meu curso de repressão a entorpecentes, eu era agente havia dois meses. No curso, contaram como os traficantes estavam agindo na Colômbia: financiavam a formação de estudantes em universidades para que aquelas pessoas depois ocupassem lugares na polícia, no Ministério Público, no Judiciário e nas escolas. Não era para ter dinheiro. Era para ter poder. Quarenta e quatro anos depois, eu vejo a mesma coisa acontecendo aqui.
A propostaPrograma permanente de contrainteligência e integridade nas carreiras de segurança pública, com verificação patrimonial periódica e investigação social continuada, e não apenas no ingresso. A infiltração não é hipótese: é método, e é antigo.
Por que eu: Porque eu dirigi a Divisão de Inteligência e ouvi esse alerta em 1982.
Cabe ao cargo: Matéria legislativa e prioridade orçamentária em inteligência.
09
Sistema prisional
Preso junto com preso vira escola
17.636presos para 10.673 vagas nas sete unidades do Distrito Federal
No Brasil, quando misturaram presos comuns com presos que tinham formação em ação armada, os comuns aprenderam. Ali não era convivência, era relação de aluno e professor. Foi assim que nasceu o crime organizado dentro do sistema. E hoje continuamos amontoando gente do mesmo jeito. Tem o criminoso que fez do crime o meio de vida, e tem o pai de família que cometeu um deslize numa discussão boba. Os dois dividem o mesmo pavilhão.
A propostaSeparação obrigatória por perfil criminal, e não apenas por regime de pena, com critério técnico e responsabilidade da administração penitenciária. Ampliação de vagas condicionada a essa separação. Não adianta construir cadeia nova e continuar misturando.
Por que eu: Porque eu fui secretário e vi de dentro.
Cabe ao cargo: Execução penal é competência legislativa da União.
10
Polícia Penal
Dois policiais não tomam conta de um pavilhão
203%de ocupação na PDF II: 3.045 internos em espaço projetado para 1.494
A Secretaria de Administração Penitenciária foi o maior desafio da minha carreira. É uma estrutura enorme, com efetivo pequeno demais e superlotação que ultrapassa qualquer limite razoável. Tem dois policiais penais tomando conta de um pavilhão com centenas de presos. O sistema só funciona pela abnegação daquela gente e por técnicas desenvolvidas ao longo do tempo para garantir a segurança deles. Mas eles estão em risco o tempo todo.
A propostaRazão mínima de policiais penais por interno definida em norma, com prazo para cumprimento. Nomeação dos aprovados em concurso já homologado, dentro do prazo de validade. E reconhecimento formal da Polícia Penal como carreira policial, com tudo que isso implica.
Por que eu: Porque a Polícia Penal do DF não tem hoje nenhum candidato a deputado federal, e eu sou o único que já foi o chefe dela.
Cabe ao cargo: Norma nacional e Fundo Penitenciário.
11
Atendimento ao cidadão
Fila não é serviço
O agendamento eletrônico de serviços nasceu na minha gestão no Detran. Antes, era fila. Depois, era horário marcado. Semana passada eu peguei uma fila enorme num banco sem necessidade nenhuma, porque ninguém me disse que aquilo dava para fazer pela internet. A gente não aprendeu nada.
A propostaDigitalização real do atendimento nas delegacias, com agendamento, acompanhamento de ocorrência e comunicação com a vítima. Boletim registrado é serviço prestado, não papel arquivado.
Por que eu: Porque eu já implantei isso uma vez, em outro órgão.
Cabe ao cargo: Diretrizes nacionais e financiamento de modernização.
12
O crime que chega na sua porta
A corrente se quebra na receptação
52 miné o intervalo médio entre um celular subtraído no DF e o próximo
No Distrito Federal, um celular é subtraído a cada cinquenta e dois minutos. E enquanto alguns indicadores de roubo caem, os registros de receptação continuam subindo. Isso diz uma coisa só: a cadeia de escoamento continua intacta. Ao mesmo tempo, o estelionato cresceu mais de trinta por cento no início deste ano. O crime migrou para o celular da pessoa, e a estrutura de investigação não migrou junto. Idoso perdendo aposentadoria em golpe de aplicativo não é estatística acessória.
A propostaRastreabilidade de aparelhos, responsabilização do receptador profissional e integração nacional de dados sobre aparelhos subtraídos. E tratamento do estelionato digital como crime prioritário, com estrutura própria de investigação. Enquanto tiver quem compre, vai ter quem furte.
Por que eu: Porque eu trabalhei quase doze anos em entorpecentes e roubo de veículo, e aprendi ali que ninguém rouba o que não consegue vender.
Cabe ao cargo: Legislação penal e integração de sistemas nacionais são competência da União.
13
Educação e prevenção
O menino tem que ter para onde ir
A únicaunidade da federação a cair no ensino médio no IDEB 2025 foi a nossa
No meu bairro de periferia, no interior de São Paulo dos anos 70, tinha quatro escolas: uma escola técnica estadual, o Senai, o Sesi e uma escola municipal. Eu me formei eletricista no colégio técnico. Trabalhei em marmoraria, em fábrica de produto de limpeza, como auxiliar de eletricista, tocando em conjunto musical à noite. Fui pobre, mas nunca fui miserável, e quem fez essa diferença foi a escola pública que existia perto de casa.
A propostaEducação profissional e escola técnica nas regiões administrativas de maior vulnerabilidade do Distrito Federal, tratadas como política de segurança pública e não como política setorial. Enquanto o Estado não chega antes, o crime chega.
Por que eu: Porque eu sou o resultado.
Cabe ao cargo: Emenda parlamentar, financiamento federal e diretriz nacional.
14
Sistema socioeducativo
Socioeducativo é segurança pública
Se o crime organizado está recrutando adolescente justamente porque sabe que ele responde menos, então isso é questão de segurança pública e precisa ser tratado como tal. Com todo o cuidado que se deve ter com um jovem, mas com a seriedade que o problema exige. Quem trabalha nessas unidades enfrenta risco real todo dia e é tratado como se não enfrentasse.
A propostaReconhecimento dos profissionais do sistema socioeducativo como agentes de segurança pública, com as prerrogativas e a proteção correspondentes, mantendo a natureza pedagógica da medida socioeducativa, que continua regida pelo ECA e pelo Sinase.
Por que eu: Essa é a única das quatorze que não nasce da minha biografia. Nasce da minha leitura, e é o lugar onde ninguém mais está.
Cabe ao cargo: É matéria constitucional e legal em tramitação no Congresso.