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Crime organizado

O que eu aprendo com El Salvador, e o que eu não copio

Muita gente me pergunta o que eu acho do que aconteceu em El Salvador. Vou responder com o que eu sou: um delegado de polícia com trinta e três anos de carreira.

Delegado Nugoli

O que eu admiro

Havia um país inteiro sob domínio de gangues, com território controlado, população intimidada e uma escalada de violência que chegou a dezenas de mortes em um único dia. E o Estado enfrentou.

Enfrentou construindo capacidade antes de prometer resultado. Construiu vaga para colocar quem prendeu. Construiu escola onde não tinha escola, porque enquanto o Estado não chega, o crime chega. Segurança e educação andaram juntas, e é assim que tem que ser.

E enfrentou com coragem, sabendo que ia ser criticado.

O que eu não copio

Eu não defendo prisão sem mandado judicial. Não defendo dificultar o acesso do preso ao advogado. Não defendo julgamento coletivo de centenas de pessoas de uma vez.

E o meu motivo não é ideológico. É técnico.

Prisão irregular gera nulidade. E nulidade solta bandido.

Eu passei a carreira inteira vendo trabalho bem feito ir para o lixo por causa de procedimento errado. O advogado não precisa nem se esforçar: ele aponta o vício e o juiz solta. Quem paga é a vítima, e quem se desgasta é o policial que trabalhou.

Prisão sem mandado não é dureza. É presente para a defesa.

Rigor de verdade é prender com prova, processar sem brecha e garantir que a condenação fique de pé. Isso dá mais trabalho e demora mais. Mas é o único que funciona.

O que falta aqui

O Brasil acaba de aprovar a lei mais dura da nossa história contra o crime organizado. A Lei Antifacção, sancionada em março de 2026, criou a figura da facção criminosa, aumentou pena, ampliou bloqueio de bens e permitiu agir mais cedo.

Só que lei não prende ninguém. Quem prende é polícia.

E a nossa Polícia Civil está com metade do efetivo em aberto. Os nossos presídios estão com mais que o dobro da capacidade em algumas unidades. A investigação financeira, que é o que realmente quebra uma facção, precisa de perito, de inteligência e de gente que saiba fazer.

Nós temos a lei mais dura da história e não temos quem execute.

É por isso que eu não vou para Brasília prometer mais uma lei. Eu vou para garantir que a que já existe saia do papel.

No que cabe a um deputado federal

Facção se combate com orçamento, com estrutura e com fiscalização

Deputado federal não faz operação policial. Deputado federal vota o dinheiro, escreve a lei e cobra quem executa. É nesses três lugares que eu vou trabalhar.

01

Efetivo, porque lei sem polícia é papel.

A Polícia Civil do Distrito Federal opera com cerca de metade dos cargos previstos em lei vagos. E quem paga essa folha é a União, pelo Fundo Constitucional do DF, votado no Congresso Nacional. Investigação de facção é longa, técnica e cara. Não se faz com delegacia vazia. Recompor efetivo é o primeiro combate ao crime organizado, e ele acontece na lei orçamentária.

02

Inteligência financeira, porque facção morre no bolso.

A nova lei ampliou o bloqueio e a apreensão de bens. Mas rastrear dinheiro exige perito, analista e inteligência, e essas carreiras estão entre as mais desfalcadas da nossa polícia. Não dá para caçar dinheiro de facção sem investir em quem sabe seguir dinheiro.

03

Vaga antes de prisão, porque não adianta prender e devolver.

Não faz sentido aprovar pena de quarenta anos com o presídio operando ao dobro da capacidade. Chefe de facção precisa de vaga em unidade adequada, com isolamento de comunicação, e isso é competência federal: Fundo Penitenciário e sistema penitenciário federal são votados no Congresso.

04

Separação por perfil, porque cadeia misturada é escola de crime.

Eu fui secretário de Administração Penitenciária e sei como o crime organizado nasceu no Brasil: misturando preso comum com preso que tinha formação em ação armada. Não foi convivência, foi aula. Vaga nova sem separação por perfil criminal não resolve nada: só constrói uma escola maior.

05

Contrainteligência, porque o crime estuda antes de entrar.

Em 1982, no meu primeiro curso de repressão a entorpecentes, contaram como os traficantes agiam na Colômbia: financiavam a formação de estudantes para que depois ocupassem lugares na polícia, no Ministério Público, no Judiciário e nas escolas. Não era para ter dinheiro. Era para ter poder. Investigação social não pode acabar no dia do concurso.

06

Receptação, porque é ali que a corrente se quebra.

No Distrito Federal, um celular é subtraído a cada cinquenta e dois minutos, e os registros de receptação continuam subindo. Enquanto tiver quem compre, vai ter quem furte. Rastreabilidade de aparelho, responsabilização de receptador profissional e integração nacional de dados atacam o caixa do varejo do crime, que é o que financia o resto.

07

O adolescente, porque é ali que a facção contrata.

O crime organizado recruta adolescente porque sabe que ele responde menos. Isso não é problema de assistência social. É recrutamento de mão de obra criminosa, e precisa ser tratado como segurança pública, com efetivo e proteção para quem trabalha no socioeducativo.

08

Fiscalizar quem executa, porque essa é a outra metade do cargo.

Deputado não serve só para escrever lei. Serve para cobrar que a lei funcione: requerimento de informação, audiência pública, comissão. A Lei Antifacção vai ser aplicada por polícias que estão sem gente e por um sistema prisional lotado. Alguém precisa acompanhar isso de perto e dizer publicamente o que não está funcionando. Eu conheço as três pontas por dentro, porque trabalhei em todas.

Isso tudo depende de orçamento

E orçamento de segurança do DF se decide no Fundo Constitucional.

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