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Biografia

A história do Nugoli

Contada por ele, em primeira pessoa. Do bairro de periferia no interior de São Paulo à Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal.

Delegado Nugoli
33anos
de Polícia Civil do Distrito Federal
13anos
como agente antes de virar delegado
9anos
à frente da Divisão de Operações Especiais
7cargos
de direção na segurança pública e na gestão do DF
Capítulo 01

O menino que vendia fruta

Eu nasci no interior de São Paulo e fui criado pelos meus avós. Meu pai morreu quando eu tinha um ano e dois meses. Meus avós assumiram minha criação quando ele tinha cinquenta e três anos e ela, cinquenta e dois.

Meu avô era alfaiate. Minha avó cuidava da casa e vendia fruta na rua. Eu cansei de ir com ela, com a cesta no braço, quando tinha uns oito anos.

A gente morava numa casa de chão batido, coberta com telha. Latrina no fundo do quintal. Eu tomava banho numa bacia, puxando uma cordinha ligada a um tambor de lata que tinha um chuveiro embaixo. Esse era o meu banheiro.

Roupa eu não tinha. Um tio que morava fora mandava uma vez por ano, e meu avô, que era alfaiate, reformava para o meu tamanho. Calçado era conga, e depois um tênis chamado pichuté, e uma sandália havaiana que servia para tudo e vivia com prego enfiado porque soltava, apesar de a propaganda jurar que não soltava.

Carne a gente comprava uma vez por semana. Mas tinha galinha no fundo, tinha ovo, tinha o que a gente plantava. Fome nós nunca passamos. Fomos pobres, mas fomos dignos.

Meu tratamento dentário era feito na escola. Meu atendimento médico era na Santa Casa de Misericórdia, onde eu nasci.

Eu não tenho o que reclamar da minha infância. Às vezes eu até sinto saudade. No último Dia dos Pais, eu almocei o prato que eu adorava comer quando era menino: arroz branco com ovo de gema mole e tomate. Não foi por nada. Foi por saudade mesmo.

Capítulo 02

Quatro escolas num bairro de periferia

Eu tive sorte. No meu bairro, que era periferia de cidade do interior, tinha quatro escolas. Uma escola técnica estadual, que era o colégio industrial. Tinha o Senai. Tinha o Sesi. E tinha uma escola municipal.

Naquela época o ensino se dividia em primário, ginásio e colegial, e para passar do primário para o ginásio você tinha que fazer um exame de admissão, uma espécie de vestibular. Se não passasse, voltava para a quarta série.

Eu me formei eletricista no colégio técnico.

Com doze anos eu já trabalhava numa marmoraria, como menor aprendiz. Com catorze fui para uma fábrica de produtos de limpeza, e ao mesmo tempo trabalhava como auxiliar de eletricista e tocava em conjunto musical, em boate e em evento da cidade.

Com dezessete para dezoito anos, prestei o serviço militar. Fui cabo, responsável pela guarda-bandeira. E nessa mesma época passei no vestibular de Direito numa faculdade da minha cidade.

Se aquela escola pública não estivesse ali, do lado da minha casa, eu não teria chegado a lugar nenhum. É por isso que eu falo de educação. Não é discurso. É a minha biografia.

Capítulo 03

Treze de dezembro de 1981

Quando terminei o serviço militar, soube que tinha concurso em Brasília para agente da Polícia Civil.

Na minha cidade não tinha para onde crescer. O máximo que eu ia ser era vendedor de loja ou funcionário da prefeitura. Então resolvi vir.

Meu avô me apoiou. Peguei o ônibus com a roupa do corpo e uma muda de camisa. Só isso.

Na viagem, sentei do lado de uma mulher que estava com um bebê no colo e outro menino junto. Falei para ela: me dá o nenê que eu seguro, você cuida do outro. Levei uma mijada e o menino ainda vomitou em mim.

Cheguei aqui no dia 13 de dezembro de 1981, com dezenove anos. Me lavei no banheiro da rodoviária, vesti a outra camisa e fui fazer a prova. Bate e volta, porque eu só tinha dinheiro para um lanche.

Pouco tempo depois chegou o telegrama. Eu tinha passado.

Capítulo 04

Treze anos de agente

Delegado Nugoli

Entrei na Polícia Civil em 1982. Minha primeira lotação foi a 15ª DP, na Ceilândia, quando a cidade ainda era quase toda terra.

Dois meses depois de entrar, surgiu um curso de repressão a entorpecentes, ministrado pelo departamento antidrogas norte-americano na Polícia Federal. Eu fui. E, com aquele grupo, participei da inauguração da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes, a DTE, que hoje é a CORD.

Fiquei quase doze anos naquela área, contando o tempo de agente e o de delegado. Passei também pela 17ª DP e trabalhei com roubo de veículo.

Nesse período eu tranquei a faculdade. O salário de agente não dava. Só em 1984 eu consegui voltar a estudar, e mesmo assim fazia um semestre e trancava dois, porque não tinha condição de pagar as contas de casa e a faculdade ao mesmo tempo.

Para conseguir dinheiro da feira, nos fins de semana eu fazia segurança em boate à noite e em clube durante o dia. Não tinha carro. Não tinha nada. Tinha disposição para trabalhar.

Me formei em Direito em 1992.

Capítulo 05

Passei nos dois e fiquei aqui

Quando me formei, surgiram dois concursos para delegado: um da Polícia Federal e um da Polícia Civil. Fiz os dois. Passei nos dois.

O da Polícia Civil era um concurso durríssimo, montado com todas as fases da magistratura e do Ministério Público: prova objetiva, discursiva, oral. Eu ainda lembro das perguntas da minha prova oral.

Passei porque sou determinado. Estudei do jeito mais difícil: lendo, escrevendo e repetindo em voz alta, à noite, depois do plantão. Mas depois que eu entendo uma coisa, ninguém tira.

Se eu fosse para a Federal, teria que sair daqui. Eu já era casado, já tinha filho, já tinha construído minha vida aqui. Fiquei na Polícia Civil.

Comecei como delegado na 13ª DP, em Sobradinho. Depois voltei para a área de entorpecentes.

Capítulo 06

Durma onde estiver

Fui aos Estados Unidos fazer um curso de gerenciamento de situações de alto risco e resposta a crises, do programa de assistência antiterrorismo do Departamento de Estado americano, na Louisiana State University. Regime de internato. Lá eu fiz especialização em atirador de elite.

Quando voltei, recebi o convite para assumir a Divisão de Operações Especiais.

A DOE naquela época era apelidada de “durma onde estiver”. Era onde a polícia colocava quem não sabia onde colocar. Gente doente, gente encostada, gente perto da aposentadoria. O trabalho era ficar na porta de banco lendo jornal.

Eu fiquei nove anos como diretor. Nós construímos doutrina de operações especiais dentro da Polícia Civil, trouxemos técnica internacional, equipamos a divisão.

E foi por causa desse equipamento que eu tive que ir à Justiça. Alegaram que material tático era função de outra corporação. Eu expliquei que aquilo não era uniforme, era equipamento: tecido leve, secagem rápida, resistência, feito para proteger a vida do policial e não para identificar ninguém. Ganhei, e o equipamento ficou.

Foi a fase da minha carreira de que eu mais sinto saudade.

Capítulo 07

Trinta e duas horas

Na DOE, a gente cuidava do gerenciamento de crise, principalmente nas unidades prisionais.

Em 2001 houve uma grande crise no complexo penitenciário, com três reféns policiais que sofreram muito nas mãos dos criminosos. Foram trinta e duas horas de negociação.

Quando você está na condição de gerenciar uma crise, você não pode se envolver emocionalmente. Se você se envolve, toma decisão errada e coloca em risco a vida de quem está lá dentro.

Naquele dia apareceu autoridade querendo entrar, querendo mandar, querendo aparecer. Eu não deixei. Expliquei que qualquer coisa tinha que passar por mim, porque se o preso falasse direto com a autoridade, a negociação acabava. Não deixei câmera entrar, não deixei repórter entrar. A pessoa saiu de lá contrariada. Mas os reféns saíram.

Eu tinha trabalhado numa crise com reféns antes, em 1986, mas ali eu ainda era agente.

Capítulo 08

Formação é a base de tudo

Depois da DOE, eu fui diretor da Academia de Polícia Civil. Foi uma das fases mais interessantes da minha vida, porque eu acredito que educação e formação são a base de tudo.

Ali nós fizemos uma coisa inédita: todos os participantes dos cursos, tanto o especial quanto o superior de polícia, e também todos os cursos de formação, saíram com titulação de pós-graduação nas suas áreas. Delegado, agente, escrivão, perito, todo mundo.

E foi ali que nasceu o projeto da Escola Superior de Polícia. Ela existe hoje. Mas está mal estruturada e sem gente para trabalhar.

Depois da Academia eu fui para o Departamento de Atividades Especiais, o Depate, ao qual eram subordinadas a DOE, a Divisão de Operações Aéreas, a Divisão de Inteligência e a Divisão de Crime Organizado.

Capítulo 09

Fora da polícia

Quando já tinha tempo de aposentadoria, exerci minha primeira atividade fora da polícia. Assumi a direção-geral do Detran. O agendamento eletrônico de serviços nasceu na nossa gestão.

Depois do Detran, fui subsecretário de Infraestrutura e Transportes.

Na Subsecretaria, nós operacionalizamos o BRT e fizemos a transferência da Rodoviária de Taguatinga para a construção do Centrad. Também mudamos toda a sinalização das vias e dos monumentos de Brasília para bilíngue, em função dos Jogos Olímpicos de 2016.

Em seguida, fui para o Ministério da Justiça, como diretor do Departamento de Políticas de Justiça, na Secretaria Nacional de Justiça.

No DPJ, eu cuidava, entre outros temas, da classificação indicativa, da modernização e democratização do Sistema de Justiça, das Oscips e organizações estrangeiras e de ações de cidadania. O Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional e o Departamento de Migrações também eram vinculados ao DPJ.

E, por fim, assumi a Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal. Foi o maior desafio da minha carreira: peguei o sistema no período mais difícil que a sociedade brasileira viveu nos últimos anos, e é por isso que hoje eu conheço aquilo por dentro como pouca gente conhece.

O sistema prisional é um ambiente onde os seres humanos são privados do seu segundo maior bem, que é a liberdade. Ali, uma pasta de dente tem valor. Um sabonete tem valor. Um espaço para estender um pano e dormir tem valor. E é por causa disso que acontece o que acontece lá dentro.

Tem preso que fez do crime o meio de vida e para quem a cadeia virou casa. E tem o pai de família, a mãe de família, o trabalhador que cometeu um deslize. Tem gente que foi presa inocentemente e depois foi solta. É um ambiente de muito sofrimento.

Capítulo 10

O que eu construí

Trinta e três anos, seis meses e três dias na Polícia Civil do Distrito Federal.

Prisões nós fizemos muitas. A maior apreensão de maconha da época foi nossa: mil e trezentos quilos. Participei de investigações de casos que ficaram conhecidos, e do primeiro sequestro que houve em Brasília.

Mas polícia não é assim. Não existe “o que você resolveu”. Policial sozinho não resolve nada. Quem resolve é a equipe. O trabalho de polícia é em equipe, e são tantos casos em trinta e três anos que é difícil lembrar de todos.

O que eu construí de mais valioso não foi feito, foi gente. Foram as amizades.

Meus amigos da polícia hoje fazem parte da minha família. Eu sou padrinho de várias crianças. Meus filhos têm padrinhos que também são policiais. A gente sofre junto, e isso une demais.

Capítulo 11

Brasília

Delegado Nugoli

Em Brasília eu criei meus filhos. Morei em Taguatinga, em vários lugares de Taguatinga. Morei no Plano Piloto, no Sudoeste, e há mais de vinte anos moro na mesma casa no Guará.

Meus filhos nasceram aqui e estudaram aqui. E tudo o que eu tenho, que é pouco, quer dizer, a casa onde eu moro e o carro que eu ando, foi conquistado através da polícia.

Eu tenho seis filhos. O mais novo tem sete anos e leva o nome do meu avô, a pessoa que me criou.

Durante a maior parte da carreira, eu não vi meus filhos crescerem. Não vi as meninas virarem moças, não vi os meninos engrossarem a voz. A maior parte dos policiais não vê. Hoje, com o mais novo, eu tenho uma oportunidade que muitos colegas nunca tiveram, e dessa eu não abro mão. A política fica em segundo lugar. Tudo fica em segundo lugar.

Eu sou muito feliz e tenho muito orgulho de ter trabalhado trinta e três anos na polícia do Distrito Federal.

Capítulo 12

Por que agora

Delegado Nugoli

Eu nunca fui candidato a nada. Nem a síndico.

Toda vez que me convidavam, eu dizia a mesma coisa: a Polícia Civil já tem candidato a distrital demais, e os problemas da nossa polícia, na maior parte, só se resolvem na esfera federal. Se um dia eu tiver a chance de ir para lá, eu penso.

Um dia me chamaram para tomar um café. Eu já desconfiava, porque quando alguém te chama para um café normalmente tem alguma coisa por trás. Perguntaram se eu toparia ser candidato a deputado federal. Eu disse que sim quase sem pensar. Depois é que fiquei refletindo no que eu tinha feito.

Mas eu disse sim porque vi ali uma chance real de fazer alguma coisa. Não por uma instituição. Pelo povo.

Aos sessenta e quatro anos, com a aposentadoria garantida e a vida resolvida, eu não estou entrando na política para ganhar nada. Estou entrando para devolver alguma coisa.

Eu tento fazer o melhor em tudo. Não deixo para dar o meu melhor amanhã. Não fujo de desafio. E como eu trabalhei trinta e três anos na polícia, eu conheço as mazelas de cada comunidade do Distrito Federal.

Se eu tivesse que me definir em poucas palavras: um homem que não tem medo de fazer o que é preciso.

A carreira, em ordem

Fiz o caminho inteiro, de baixo para cima

Muita gente chega à polícia por cima. Eu comecei na base e levei treze anos para chegar a delegado, estudando e trabalhando ao mesmo tempo.

1982

Agente de polícia, Ceilândia

Minha primeira lotação foi na 15ª DP, quando a Ceilândia ainda era quase toda terra batida. Dois meses depois de entrar, fui escalado para o curso de repressão a entorpecentes e participei da inauguração da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes, hoje a CORD.

1984–1992

A faculdade paga aos poucos

O salário de agente não dava para pagar o curso de Direito. Fazia um semestre e trancava dois. Nos fins de semana, trabalhava como segurança em boate à noite e em clube durante o dia para ter dinheiro da feira. Me formei em 1992.

1996

Aprovado para delegado na Polícia Federal e na Polícia Civil

Passei nos dois concursos. Escolhi ficar na Polícia Civil do Distrito Federal, onde eu já tinha construído minha vida. Comecei como delegado na 13ª DP, em Sobradinho, e voltei para a área de entorpecentes.

1998

Formação internacional em resposta a crises

Curso de equipe de resposta a crises do programa de assistência antiterrorismo do Departamento de Estado dos Estados Unidos, na Louisiana State University.

9 anos

Divisão de Operações Especiais

Assumi a DOE quando a divisão era apelidada de “durma onde estiver”, porque recebia quem a polícia não sabia onde colocar. Fiquei nove anos como diretor. Construímos doutrina, equipamento e treinamento de operações especiais dentro da Polícia Civil.

2001

Gerenciamento da crise no complexo penitenciário

Coordenei a negociação de uma rebelião com reféns policiais. Foram 32 horas. Mantive a imprensa fora e a cadeia de comando intacta, porque em gerenciamento de crise quem se envolve emocionalmente toma decisão errada e coloca vidas em risco.

Diretor

Academia de Polícia Civil

Como diretor, implantamos a primeira formação em que todos os policiais saíram com titulação de pós-graduação na sua área. Foi ali também que nasceu o projeto da Escola Superior de Polícia. Acredito que formação é a base de tudo.

Diretor

Departamento de Atividades Especiais

Dirigi o Depate, ao qual eram subordinadas a DOE, a Divisão de Operações Aéreas, a Inteligência e o Crime Organizado.

Direção-geral

Detran do Distrito Federal

Assumi a direção geral. O agendamento eletrônico de serviços nasceu na nossa gestão.

Subsecretário

Infraestrutura e Transportes

Gestão pública fora da polícia, na Secretaria de Transportes do Distrito Federal.

Diretor

Ministério da Justiça

Diretor do Departamento de Políticas de Justiça, na Secretaria Nacional de Justiça.

Secretário

Administração Penitenciária do Distrito Federal

Meu último cargo e o maior desafio da carreira. Conheci por dentro o sistema prisional do DF, com toda a sua superlotação e todo o despreparo com que o Estado trata quem trabalha lá.

Agora você sabe de onde eu venho

O que eu vou fazer com isso está na página das propostas.

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