O menino que vendia fruta
Eu nasci no interior de São Paulo e fui criado pelos meus avós. Meu pai morreu quando eu tinha um ano e dois meses. Meus avós assumiram minha criação quando ele tinha cinquenta e três anos e ela, cinquenta e dois.
Meu avô era alfaiate. Minha avó cuidava da casa e vendia fruta na rua. Eu cansei de ir com ela, com a cesta no braço, quando tinha uns oito anos.
A gente morava numa casa de chão batido, coberta com telha. Latrina no fundo do quintal. Eu tomava banho numa bacia, puxando uma cordinha ligada a um tambor de lata que tinha um chuveiro embaixo. Esse era o meu banheiro.
Roupa eu não tinha. Um tio que morava fora mandava uma vez por ano, e meu avô, que era alfaiate, reformava para o meu tamanho. Calçado era conga, e depois um tênis chamado pichuté, e uma sandália havaiana que servia para tudo e vivia com prego enfiado porque soltava, apesar de a propaganda jurar que não soltava.
Carne a gente comprava uma vez por semana. Mas tinha galinha no fundo, tinha ovo, tinha o que a gente plantava. Fome nós nunca passamos. Fomos pobres, mas fomos dignos.
Meu tratamento dentário era feito na escola. Meu atendimento médico era na Santa Casa de Misericórdia, onde eu nasci.
Eu não tenho o que reclamar da minha infância. Às vezes eu até sinto saudade. No último Dia dos Pais, eu almocei o prato que eu adorava comer quando era menino: arroz branco com ovo de gema mole e tomate. Não foi por nada. Foi por saudade mesmo.



