A cesta no braço da minha avó

Minha avó vendia fruta na rua. Eu cansei de ir junto com ela, com a cesta no braço, quando tinha uns oito anos.
Meu avô era alfaiate. Foram eles que me criaram, depois que meu pai morreu, quando eu tinha um ano e dois meses. Assumiram a minha criação já com mais de cinquenta anos cada um, numa idade em que a maioria das pessoas está pensando em descansar.
A gente morava numa casa de chão batido, coberta de telha. Latrina no fundo do quintal. Eu tomava banho numa bacia, puxando uma cordinha ligada a um tambor de lata com um chuveiro embaixo.
Roupa eu não comprava. Um tio que morava fora mandava uma vez por ano e meu avô, que era alfaiate, reformava para o meu tamanho.
Carne era uma vez por semana. Mas tinha galinha no fundo, tinha ovo, tinha horta. Fome nós nunca passamos.
Fomos pobres, mas nunca fomos miseráveis. E eu faço questão dessa distinção, porque ela diz tudo sobre o que o Estado faz ou deixa de fazer.
O que separou a minha família da miséria não foi favor de ninguém. Foi ter escola pública boa no bairro, dentista na escola e atendimento na Santa Casa.
Era pouco. Mas era o suficiente para a gente não afundar.
Hoje, quando eu vejo a discussão sobre política social, é nisso que eu penso. Não se trata de dar ou não dar. Trata-se de dar o quê.
Dinheiro que mantém a pessoa parada no mesmo lugar não muda nada. Escola, saúde e formação mudam uma família inteira em uma geração.
Eu sou a prova.
Delegado Nugoli 5551. Deputado Federal.


