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Crônicas

Crônicas do Delegado Nugoli

Histórias de 33 anos de Polícia Civil do Distrito Federal, contadas em primeira pessoa. Cada uma começa numa cena e termina numa proposta de mandato.

30 crônicas

Ilustração de uma sacola de viagem e uma camisa dobrada sobre banco de rodoviária antiga
De onde eu vim

A muda de camisa

Dezembro de 1981, 19 anos, uma prova da Polícia Civil e nenhum plano B. A história que explica por que falo de oportunidade.

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Ilustração de cesta de vime com frutas na porta de uma casa simples do interior
De onde eu vim

A cesta no braço da minha avó

Criado pelos avós, entre a fruta vendida na rua e a escola pública do bairro. Pobre, mas nunca miserável: o que fez essa diferença.

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Caderno antigo, caneta e livro de Direito sobre mesa de madeira à noite
De onde eu vim

Um semestre sim, dois não

Agente de polícia com salário curto, segurança de boate à noite e a faculdade de Direito trancada e retomada. Recado a quem estuda para concurso.

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Prato de arroz branco, ovo frito de gema mole e tomate sobre toalha xadrez
De onde eu vim

Arroz com ovo de gema mole

O prato da infância na casa de chão batido e por que quem viveu a pobreza é mais difícil de enganar.

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Tênis de criança ao lado de sapatos de couro gastos na porta de casa, com fita métrica de alfaiate
De onde eu vim

O nome do meu avô

O filho de sete anos leva o nome do avô alfaiate. Sobre a família do policial, que segura o que o Estado não segura.

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Ilustração de fachada de colégio técnico estadual dos anos 70 com bandeira do Brasil
De onde eu vim

Quatro escolas num bairro de periferia

Colégio industrial, Senai, Sesi e escola municipal num bairro pobre. Por que escola técnica também é política de segurança pública.

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Mesa de repartição vazia, cadeira afastada e corredor institucional ao fundo
A polícia por dentro

Nove meses sem uma caneta

O corredor da polícia: lotado no papel, sem função na prática. A primeira proposta do plano nasce dessa experiência.

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Colete, capacete, luvas e coturnos táticos sobre banco de vestiário
A polícia por dentro

Durma onde estiver

Nove anos à frente da Divisão de Operações Especiais. Não existe unidade ruim, existe unidade abandonada.

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Detalhe macro de tecido técnico azul-marinho com costura reforçada
A polícia por dentro

Equipamento não é uniforme

Em 2001 equipei a DOE com material de proteção e fui questionado na Justiça. Ganhei. Agora quero que vire regra.

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Formatura em auditório vista de trás, sem rostos identificáveis
A polícia por dentro

O dia em que pós-graduamos a polícia inteira

Na Academia de Polícia, todos saíram especialistas. Por que economizar em formação policial sai caro.

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Relógio antigo na parede de corredor prisional vazio e escuro
A polícia por dentro

Trinta e duas horas

A crise de 2001 com três policiais reféns. Por que o trabalho de polícia que dá certo é o que ninguém vê.

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Banco de madeira vazio em corredor de fórum com luz da tarde
A polícia por dentro

Quando a polícia sobe, eu vou sozinho

O policial age em nome do Estado e responde sozinho. A proposta de defesa jurídica institucional desde o primeiro dia.

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Mesa de churrasco no quintal depois da festa, cadeiras vazias e churrasqueira
A polícia por dentro

O que eu construí não foi prisão

Do que mais me orgulho na polícia: a equipe, os afilhados e o churrasco de dez anos. Saúde do policial tem nome.

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Arte tipográfica com 36,63% em amarelo sobre azul-marinho e ícones de pessoas
Prisão e socioeducativo

A carreira mais vazia da polícia é a que cuida do preso

Agente de custódia: 800 cargos previstos e 293 ocupados. Quem paga essa folha e onde isso se resolve.

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Ilustração abstrata de dois blocos, azul e amarelo, se chocando
Prisão e socioeducativo

Preso junto com preso vira escola

Como o crime organizado nasceu dentro do sistema prisional e a proposta de separar presos por perfil criminal.

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Corredor longo de bloco prisional com celas dos dois lados
Prisão e socioeducativo

Dois policiais e um pavilhão

Superlotação, efetivo congelado e aprovados esperando nomeação. A proposta de razão mínima por interno.

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Página de livro de leis com uma linha grifada de amarelo
Prisão e socioeducativo

Sete anos para corrigir uma frase

A Polícia Penal está na Constituição desde 2019, mas fora da Lei do Fundo Constitucional. Uma omissão que ninguém foi corrigir.

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Dois crachás em branco lado a lado sobre fundo azul-marinho
Prisão e socioeducativo

Mesmo adolescente, mesma facção, mesmo risco

O agente socioeducativo faz trabalho de segurança e não é tratado como tal. Risco igual pede direito igual.

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Sala de aula universitária vazia com luz entrando pela janela
Crime, facção e justiça

O crime estuda antes de entrar

Uma lição de 1982 sobre infiltração e a proposta de contrainteligência permanente nas carreiras de segurança.

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Pasta de inquérito fechada sobre mesa de delegacia, com carimbo e almofada
Crime, facção e justiça

Prisão sem mandado é presente para a defesa

O que eu admiro e o que eu não defendo no modelo de El Salvador. Rigor é prender com prova e condenação que fica de pé.

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Livro de leis fechado sobre mesa vazia, com luz lateral
Crime, facção e justiça

Nós temos a lei mais dura da história e não temos quem execute

Lei não prende ninguém. Sem perito e inteligência financeira, não se segue o dinheiro da facção.

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Pilha de celulares com telas quebradas sobre mesa riscada
Crime, facção e justiça

A corrente se quebra na receptação

Um celular subtraído a cada 52 minutos no DF. Ninguém rouba o que não consegue vender.

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Corredor de hospital vazio à noite, com maca encostada
Crime, facção e justiça

Organização criminosa não muda de forma porque usa jaleco

A investigação sobre cartel na anestesia do DF, as cirurgias que deixaram de ser feitas e os médicos que também são vítimas.

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Ilustração de rua de terra vermelha de cidade-satélite nos anos 80
A cidade

Ceilândia era só terra

Primeira lotação em 1982, na 15ª DP. Quem só conhece a cidade vê a fachada; quem trabalhou viu a madrugada.

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Carteira escolar vazia em sala de aula de escola pública
A cidade

A única rede do país que caiu

No IDEB 2025, o DF foi a única rede com queda no ensino médio. Por que educação, cultura e segurança andam juntas.

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Senha de atendimento amassada sobre balcão, sala de espera ao fundo
A cidade

Fila não é serviço

O agendamento eletrônico do Detran e a proposta de acompanhar a ocorrência na delegacia. Respeito ao tempo de quem procura o Estado.

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Congresso Nacional em Brasília sob céu azul, com o espelho d'água
O mandato

Por que federal e não distrital

As forças de segurança do DF são pagas pelo Fundo Constitucional, votado no Congresso. É lá que essa conta se decide.

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Caderno aberto com quatro linhas escritas à mão, caneta e óculos
O mandato

O que eu não vou fazer

Quatro compromissos negativos, por escrito, para serem cobrados: emenda, polícia, chefia e patrimônio.

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Obra pública abandonada e maço de dinheiro desfocado em primeiro plano
O mandato

Emenda não é moeda

Emenda existe para chegar na ponta. Um teste simples para conferir o que fez o deputado em quem você votou.

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Mesa de padaria com dois cafezinhos e uma cadeira puxada
O mandato

Nunca fui candidato a nada. Nem a síndico.

A primeira eleição aos 64 anos, depois de 33 anos, 6 meses e 3 dias de Polícia Civil. Por que eu disse sim.

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