A muda de camisa

Cheguei em Brasília no dia 13 de dezembro de 1981. Tinha 19 anos e trazia a roupa do corpo e uma muda de camisa.
Na minha cidade, no interior de São Paulo, não tinha para onde crescer. O máximo que eu ia ser era vendedor de loja ou funcionário da prefeitura. Quando soube que tinha concurso para agente da Polícia Civil aqui, meu avô me apoiou e eu peguei o ônibus.
Na viagem, sentei do lado de uma mulher com um bebê no colo e outro menino pequeno junto. Falei para ela: me dá o nenê que eu seguro, você cuida do outro. Levei uma mijada e o menino ainda vomitou em mim.
Eu ia fazer prova em duas horas.
Desci, me lavei no banheiro, vesti a outra camisa e fui. Voltei no mesmo dia, porque o dinheiro só dava para um lanche.
Semanas depois chegou um telegrama. Eu tinha passado.
Conto isso porque às vezes as pessoas olham para um delegado aposentado, de terno, e imaginam uma vida que começou confortável. Não começou. Começou numa rodoviária, com a camisa suja e sem plano B.
E é por isso que eu entendo quem está começando agora. O menino que trabalha e estuda, o concurseiro que faz a prova sem saber se vai dar, a mãe que segura duas crianças no ônibus.
Eu fui todos eles.
Quando eu falo em oportunidade, em escola técnica no bairro, em concurso que sai do papel, não é discurso de campanha. É memória.
Delegado Nugoli 5551. Deputado Federal.


