Prisão sem mandado é presente para a defesa

Muita gente me pergunta o que eu acho do que aconteceu em El Salvador. Vou responder com o que eu sou: um delegado de polícia com 33 anos de carreira.
Eu admiro coisas de lá. Admiro enfrentar quem dominava território. Admiro ter construído capacidade de custódia antes de prometer resultado. Admiro ter construído escola onde não tinha escola, porque enquanto o Estado não chega, o crime chega.
Mas eu não defendo prisão sem mandado judicial. Não defendo dificultar o acesso do preso ao advogado. Não defendo julgamento coletivo de centenas de pessoas.
E o meu motivo não é ideológico. É técnico.
Prisão irregular gera nulidade. E nulidade solta bandido.
Eu passei a carreira inteira vendo trabalho bem feito ir para o lixo por causa de procedimento errado. O advogado não precisa nem se esforçar: ele aponta o vício e o juiz solta. Quem paga é a vítima, e quem se desgasta é o policial que trabalhou meses naquilo.
Prisão sem mandado não é dureza. É presente para a defesa.
Rigor de verdade é prender com prova, processar sem brecha e garantir que a condenação fique de pé.
Isso dá mais trabalho. Demora mais. Não rende manchete no mesmo dia.
Mas é o único que funciona.
Delegado Nugoli 5551. Deputado Federal.


