Trinta e duas horas

Em 2001, houve uma grande crise no complexo penitenciário da Papuda. Rebelião com reféns, e três deles eram policiais.
Eu era o diretor da Divisão de Operações Especiais e o responsável pelo gerenciamento daquela crise.
Foram trinta e duas horas de negociação.
Quem gerencia crise não pode se envolver emocionalmente. Se você se envolve, toma decisão errada, e decisão errada ali dentro custa vida. E quem negocia não pode ter a cadeia de comando quebrada, porque no minuto em que o preso passa a falar direto com outra autoridade, a negociação acaba.
Naquele dia apareceu autoridade querendo entrar. Querendo mandar. Querendo aparecer na frente da câmera.
Eu barrei.
Não deixei câmera entrar. Não deixei repórter entrar. Expliquei que qualquer coisa tinha que passar por mim, e que se ele estivesse ali, ele quebraria a escada de comando que a gente tinha montado.
A pessoa saiu contrariada.
Os reféns saíram com vida.
Aprendi naquele dia uma coisa que nunca mais esqueci: o trabalho de polícia que dá certo é o que ninguém vê.
Por isso uma das minhas propostas é ter equipe de negociação e gerenciamento de crise treinada e permanente em todo o sistema prisional, com protocolo claro de quem decide, quem negocia e quem não entra.
Crise não se resolve com coragem improvisada.
Se resolve com técnica e com alguém disposto a não aparecer.
Delegado Nugoli 5551. Deputado Federal.


